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CULTURA SAUDADES

BENITO DI PAULA: Do samba ao piano e a genialidade de um artista que conquistou o Brasil

Partida do cantor deixou a cultura nacional ainda mais pobre.

22/10/2026 08h08 Atualizada há 34 minutos atrás
Por: Pedro Tinoco
Benito di Paula deixou marcas inesquecíveis na música popular brasileira.
Benito di Paula deixou marcas inesquecíveis na música popular brasileira.

CHICO CARLOS* - A música brasileira despediu-se, no domingo, 18 de outubro, de um de seus grandes nomes. Morreu, aos 84 anos, Benito di Paula, cantor, compositor e pianista nascido em Nova Friburgo (RJ), que construiu uma trajetória singular e conquistou milhões de admiradores com seu jeito inconfundível de fazer samba.

Batizado Uday Vellozo, Benito cresceu em uma família humilde e musical. Aprendeu as primeiras notas no violão e em outros instrumentos de corda com o próprio pai.

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O piano, porém, só entrou em sua vida mais tarde, quando ganhava o sustento cantando em bares, boates, hotéis e botequins do Rio de Janeiro.

Inteligente e perspicaz, aproveitava os intervalos dos shows para estudar o instrumento por conta própria, transportando para as teclas os acordes que já dominava no violão.

Essa experiência foi fundamental para a construção de sua identidade musical. Benito desenvolveu uma linguagem própria, que ultrapassou os limites dos rótulos e das classificações convencionais.

CONSAGRAÇÃO - Enquanto parte da crítica musical e dos círculos intelectuais torcia o nariz para seu estilo, muitas vezes tratado de maneira pejorativa, o público o consagrava.

Sua música falava diretamente ao coração do povo, com melodias marcantes, arranjos envolventes e uma sonoridade que unia romantismo, balanço e simplicidade.

O resultado foi uma carreira extraordinária, marcada por milhões de discos vendidos no Brasil e no exterior.

CHARLIE - Canções como “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Vai Ficar na Saudade”, “Tudo Está no Seu Lugar” e “Homem da Montanha” tornaram-se clássicos da música popular brasileira, atravessando gerações e permanecendo vivas na memória afetiva de seus admiradores.

Na década de 1970, quando a Bossa Nova já havia consolidado o piano como um dos instrumentos emblemáticos de suas harmonias sofisticadas e seus ritmos sincopados, Benito trilhou um caminho próprio.

Em vez de seguir os padrões dominantes, transformou o piano em uma extensão de sua personalidade artística, explorando uma sonoridade percussiva, harmonias expressivas, influências do blues e arranjos românticos.

ÚNICO - Benito construiu uma discografia que acompanhou diferentes momentos da música brasileira sem perder sua essência.

Sua obra também alcançou o mercado internacional, como demonstra Caprichos de la Vida, álbum gravado em espanhol e lançado em 1978, além de projetos instrumentais, registros ao vivo e coletâneas que mantiveram seus grandes sucessos em circulação.

PIANO - Sua maneira de tocar conferia ao instrumento uma força rítmica quase física. O piano não era apenas um acompanhamento: assumia o protagonismo, dialogava com a voz e conduzia o samba com personalidade.

As melodias diretas, apoiadas em harmonias acessíveis e marcantes, criavam uma comunicação imediata com o público.

Essa combinação de piano percussivo, voz característica, melodias populares e arranjos de forte apelo emocional tornou-se sua assinatura.

Benito ajudou a ampliar o espaço do piano no samba e demonstrou que a sofisticação musical não depende de complexidade excessiva. Sua arte provou que simplicidade, criatividade e autenticidade podem caminhar juntas e alcançar multidões.

Mais do que um artista de grandes sucessos comerciais, Benito di Paula foi responsável por consolidar uma identidade musical própria, reconhecida de imediato nos primeiros acordes.

PERSONALIDADE - Sua trajetória também evidenciou a distância que pode existir entre os julgamentos de parte da crítica e a resposta espontânea do público.

Enquanto alguns questionavam seu estilo, milhões de pessoas cantavam suas músicas, transformando-as em trilha sonora de encontros, amores, saudades e celebrações.

Benito partiu, mas deixou uma obra que continuará pulsando na história da música popular brasileira. Seu piano, seu jeito particular de interpretar o samba e suas canções inesquecíveis permanecerão vivos nos corações e nas mentes de todos aqueles que encontraram em sua música emoção, alegria e identidade.

Obrigado, Benito di Paula, pelas belas canções e pelos sambas ao piano que jamais serão esquecidos. O eterno sambeiro-pianeiro deixa o palco, mas sua música continuará tocando para sempre. Descanse em paz!

*Chico Carlos é jornalista, escritor e crítico de música.

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